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Estrelas Na Estrada – Parte 6

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– Essa foi mais forte.

– Deve ser a qualquer momento, agora.

– O garoto não terá encontrado a parteira, ainda?

– Dara, você poderia… Dara? Cadê ele?

– Onde você acha? A esta altura deve estar arrebatando o rapaz e fazendo-o voar – literalmente – até à mulher. – Respondeu Ariel contendo o riso.

Nem ele nem Zaniel perceberam o momento em que Dara saiu. Estavam completamente atentos ao que ocorria na gruta-estrebaria: Maria tinha provado uma colher da sopa trazida quando, repentinamente, curvou-se, deixando cair o resto no chão. José a ajudara a se deitar e pediu a Simão – o servo mais velho – para trazer uma parteira. O rapaz saiu e as contrações continuaram, cada vez mais próximas umas das outras.

– A Menina está incrivelmente calma para quem está dando à luz pela primeira vez. – Comentou Zaniel.

– Estou vendo. Há graça sobre ela, você sabe.

– Sim. E até por isso, embora seja a primeira vez com ela mesma, a Menina já auxiliou parteiras antes. O parto mais recente foi o de João, filho de Zacarias e Isabel.

– Só não entendi porque ela pediu ao marido para ficar na porta, quase fora da gruta! – Os dois anjos se voltaram ao ouvir esse comentário vindo de trás deles. Era Dara que acabara de chegar, sozinho, e com um semblante intrigado.

– Salve, Dara! Estávamos imaginando o que você estaria fazendo. – Disse Ariel.

– Eu tentei auxiliar o rapaz. Encontramos a parteira. Mas, aí, parece que toda sorte de coisas aconteceu para atrasa-la. Acabei percebendo que há algo mais acontecendo. De qualquer modo, vão se atrasar, pelo que estou vendo.

– Não há atrasos aqui, Dara; e você sabe disso. Ele faz tudo no tempo perfeito.

– Só Ele faz!

– Só Ele faz! – Dara repetiu. Um momento de silêncio se seguiu enquanto Maria experimentava outra contração.

– Então? – Insistiu Dara. – Por que ela pediu que o marido ficasse à porta?

Foi Ariel quem respondeu.

– As mulheres são mais fortes que os homens pra esse tipo de coisa. José não sabe o que fazer e o nervosismo dele pode acabar afetando Maria. Assim, ela – como a maior parte das mulheres – prefere enfrentar isso sozinha, embora mantendo-o por perto. – E, depois, olhando diretamente para Dara. – Você não conhece muito os humanos, não?

– Achei que Zaniel havia lhe falado que eu…

– O rapaz está voltanto. – Interrompeu Zaniel. – E vem sozinho!…

Os três observaram enquanto Simão se dirigia a José e falava com ele. Quando o rapaz foi embora, José se voltou e disse a Maria o resultado da busca.

– “Está vindo, mas ainda está longe.”? – Dara repetiu as palavras de José, tentando entender.

– Está tudo no controle Dele, Dara. Só Ele faz!

– Só Ele faz. – Repetiram Dara e Ariel.

– Só Ele faz!! – Disseram três vozes atrás deles. Os três se voltaram. Quem olhasse com atenção, se soubesse o que procurar, teria a impressão de ver o ar frio da noite parecendo refratar-se, ligeiramente.

– Uriel! Sorath!! Vocês aqui? – Exclamou Ariel com surpresa, esquecendo-se de saudá-los. – Quase não os vejo desde… desde Sodoma!

– Hemã!! – Falou Dara. – Você também?! Que surpresa! Mas… Você… Então… Vai haver música?!

Enquanto os seis anjos se olhavam, Zaniel se recuperou da surpresa:

– Salve! Estrelas da Alva! Chegam à noite, mas trazem a luz do Trono com vocês! Sejam bem-vindos!!

Enquanto falava, muitos outros foram surgindo ao redor. De fato, se não fossem capazes de se moverem em dimensões diferentes da física, seria impossível o ajuntamento.

Uma resplandecência ligeiramente âmbar se colocou ao lado de Dara.

– Zarius!! – Dara exclamou com alegria, e abraçou o amigo. A quem conseguisse ver, a pequena vila de Belém pareceria ter desaparecido em meio a uma enorme constelação de brilho celestial. O jumento e a vaca, postados à esquerda da entrada da gruta, pareciam ter os olhos arregalados. Mas nunca se soube se viram ou perceberam alguma coisa.

Apesar da surpresa inicial, não houve tempo para cumprimentos e conversas – Maria acabava de ter mais uma contração.

– José! – Apesar do que pudesse preferir, ela chamou o marido. Se pudesse ver, José perceberia uma multidão de mãos luminosas a conduzi-lo na direção da esposa. Mas foram as mãos de José que seguraram as de Maria. A contração passou. O silêncio angelical, desnecessário já que os humanos não os ouviam, parecia afetar o ambiente, de alguma forma.

– Há algo estranho aqui, não? – Observou José.

– Acho,… – falou Maria, rosto suado, entrecortando as palavras – …acho que… ainda vamos ver… muitas coisas estranhas, José.

– Você acha?! – Exclamou Dara, repentinamente. Sentiu milhares de pares de olhos em sua direção, expressando surpresa com a quebra do silêncio.

Mas isso não durou muito, pois, naquele exato momento, duas auras se apresentaram e, diante delas, todos inclinaram ligeiramente a cabeça: Miguel e Gabriel entraram na gruta andando, como se tivessem vindo pela estrada até à vila e à estrebaria. Dara olhou para Zaniel e, se anjos podem arregalar os olhos, era isso que estava estampado em sua face, como a perguntar “Miguel? Miguel aqui?!” O momento, já solene, se revestiu de uma intensidade maior. A maioria não sabia exatamente o que tudo aquilo significava; todos estavam prontos para qualquer missão – à voz de qualquer palavra de ordem que fosse dada –, mas não estavam a par de todos os detalhes. Esperavam e se admiravam quase com a mesma disposição. Enquanto os dois recém-chegados se dirigiam para o casal, Dara e os demais, considerando tudo até ali, sentiam crescer dentro deles o espanto, a expectativa – e uma mistura de intensa alegria com uma conclusão que, se traduzida para nossa linguagem, teríamos de usar a palavra… apavorante.

Em poucos minutos as contrações aumentaram. Finalmente, com um grito mais de esforço que de desespero, Maria curvou-se uma última vez enquanto José, nervoso e desajeitado, procurava ajudá-la.

Um choro se ouviu na noite em Belém.

Todos os anjos se puseram sobre um dos joelhos, a começar por Miguel.

A Canção, depois de milênios, estava sendo entoada outra vez…

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